segunda-feira, 2 de março de 2009

Sem Reciprocidade

All Star
Nando Reis
Composição: Nando Reis

Estranho seria se eu não me apaixonasse por você
O sal viria doce para os novos lábios
Colombo procurou as índias mas a terra avistou em você
O som que eu ouço são as gírias do seu vocabulário

Estranho é gostar tanto do seu all star azul
Estranho é pensar que o bairro das Laranjeiras
Satisfeito sorri quando chego ali e entro no elevador
Aperto o 12 que é o seu andar
Não vejo a hora de te reencontrar
E continuar aquela conversa
Que não terminamos ontem
Ficou pra hoje

Estranho mas já me sinto como um velho amigo seu
Seu all star azul combina com o meu preto de cano alto
Se o homem já pisou na lua, como eu ainda não tenho seu endereço?
O tom que eu canto as minhas músicas para a tua voz parece exato

Estranho é gostar tanto do seu all star azul
Estranho é pensar que o bairro das Laranjeiras
Satisfeito sorri quando chego ali e entro no elevador
Aperto o 12 que é o seu andar
Não vejo a hora de te reencontrar
E continuar aquela conversa
Que não terminamos ontem ficou pra laranjeiras

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Quem come seus males espanta ...

Maria recorria a valvula de escape. Estava ali sentada em uma daquelas cadeiras com mesas padronizadas de quatro lugares, no meio daquele burburinho de vozes que não pararam, barulho irritante de muita gente falando mas que você não consegue identificar uma palavra. Programa de paulistano para o almoço de domingo, apesar de não gostar era com frequencia que podia ser encontrada ali.

No lugar marcado que sempre sentava na praça de alimentação, tentando digerir com o alimento suas angustias. Mas o fast food ficava cada vez menos saboroso e inevitávelmente sem graça.

Era a solução que a sua mãe propunha quando era criança, todo e qualquer problema ou era fome, ou era sono, não importava, afinal criança não tem problemas serios, problemas de verdade. Aparentemente quando era criança isso funcionava e tinha a sorte de não ter tendencia para engordar.

Já estava no fim da adolescencia e ainda tentava esse metodo tentava minimizar a dimensão de seus questionamentos, das suas expectativas, das suas angustias para se disolverem tomando um milk shake, mas isso já não surtia mais efeito, agora com total ineficacia o estomago ficava cheio, a cabeça ficava cheia, o coração vazio, o bolso vazio . . .

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Fobia de Duvida


A duvida surgiu assim que abriu os olhos naquela terça-feira, instantâneamente como se não tivesse interrompido os pensamentos antes de dormir. Escovou os dentes com duvida, se vestiu com duvida, tomou café com duvida, pegou o ônibus com duvida, chegou no trabalho com a mesma duvida. Duvida que aumentava a cada segundo.
Sabia que não poderia ficar sem uma certeza por mais de um dia, viria um desassossego cada vez mais intenso até sua respiração falhar, seu corpo tremer, seus lábios e dedos ficarem roxos e o espaço ficar apertado.
Ela dizia uma coisa, ele dizia outra, porem aparentemente estava tudo correndo normal, mas quais eram as expectativas reais de ambos? Ela percebeu que afirmava uma coisa e suas intenções estavam mudando, nunca conseguiu manter suas vontades no raso, sem se envolver. Precisava sentir a situação harmôniosa. Aquilo por menor que parecesse estava lhe trazendo agitação.
Antes da inquietudade planava sensações caóticas. Aos seus pés alguem desmaiaria? Em seu ouvido alguem gritaria? Em seu rosto alguma coisa explodiria? Quem repara que algumas vezes ela estava cautelosamente neurótica? Como ela detestava quando isso acontecia... Mas acontecia, e ela aprendeu a ficar atenta quando seu corpo lhe dava os sinais. Quanta angustia.
Era fácil de colocar fim em tudo aquilo, era só uma questão de sanar a ansiedade sobre alguma questão, tudo terminaria. Não era uma pessoa bem resolvida, mas não conseguia ficar sem definição. Precisava saber se estava reagindo condizente com a situação, se não estava sendo efusiva ou impassiva.
Não era a sua preferencia, mas a duvida teria de ser esclarecida via msn, assim sem emoção, sem olhar nos olhos, sem perceber reações faciais. E dizia sem rodeios, sem aviso previo o que a estava incomodando, sem jogo de cintura, sem escolher palavras, assim na lata, quase sempre assustava, quase sempre estragava.
Sua duvida muchou, ficou surpresa com as resostas para suas perguntas, alguma coisa estava se formando dentro dela, mas naquele momento se quebrou por natureza tão delicada. Algo novo e fragil. Ele partiu o envolvimento, qualquer coisa que ele dissesse agora não reformaria os danos. Se espatifou.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Sem poder te tocar


Você conversava animadamente comigo, eu nem prestava atenção no que você dizia, apenas sorria e balançava a cabeça, estava inebriada com seus olhos e suas expressões, não que eu não estivesse te ouvindo, sua voz soava como melodia, me hipnotizava e eu absorvia somente algumas frases, minhas respostas eram apenas divagações. Já havia tentado, eu sei, duas vezes até, tentativas mal sucedidas, delicadamente fracassadas, de estar perto de você com outra rotulação, alem de amiga. Nunca achei nomenclaturas necessárias, mas com você eu queria ter um rótulo, fixo e que as pessoas respeitassem. Mas estava ali na posição que eu poderia estar. Doía. Era bem verdade. Algumas vezes, seu abraço, era um ato masoquista para mim. Tocá-lo doía. Mesmo um beijo no rosto. Doía pelos limites que eu não ultrapassava, não poderia.
Pensava no que você faria se eu fosse impulsiva agora, você falando e eu sem mais nem menos... Pronto. No susto.

De repente chegamos em um assunto que me despertou, emitiu um som como um estalo na minha cabeça, um zumbido. Sua frustração me afasta de você. Penso que você não leva a sério o que sinto. Que sua desistencia, consequencia de tantas tentativas frustradas como as minhas lhe deixou descrente. Eu queria fazê-lo mudar de idéia, eu queria lhe dar um beijo, eu queria fazê-lo entender, mas como diria isso? Não quis apresentar meus argumentos novamente, desgastados e não convincentes. Mêtro. Devolta pra casa. Gosto salgado no rosto.

ao som de Nando Reis> "Estranho seria se eu não me apaixonasse por você".

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Manual : "Como andar de ônibus"

Foto por: Talita Casemiro

Não tinha muito sorte de entrar em um ônibus todas as vezes e ter lugares vagos, muitos lugares vagos inclusive. Buscou um lugar no banco mais alto ao lado da janela onde os dois lugares estavam vazios. Abriu um livro e achou pouco interesse para lhe fixar a atenção.

Era um dia em que caminhava mais devagar, que não olhava no relógio e não estava com preocupações. Era uma terça-feira e acordou em câmera lenta. Era óbvio que chegaria atrasada no seu destino, mas saber disso não a estava incomodando. Nem o fato de que a qualquer minuto um estranho sentaria ao seu lado.

O ônibus chacoalhava e ela parou de tentar ler o livro já estava ficando nauseada _nota mental: não ler livros dentro de ônibus quando recentemente tiver feito o dejejum. Olhe para um ponto fixo rápido.

Era engraçado até, observava atentamente as pessoas que entravam no mesmo transporte e se perguntava o que as levavam a não escolher o assento em sua companhia, era absurdamente esquisito pensar assim, era dia de exceção já que em geral quando via alguém passar pelo cobrador torcia mentalmente para que a pessoa escolhesse qualquer lugar menos o que estava vago ao seu lado, não gostava da companhia para a viagem urbana rotineira de homens: velhos folgados, gordos espaçosos, cheirando a suor, a bebida, a cigarro, a perfume barato, com cara de maníaco do parque ou ex penitenciário, não gostava da companhia de mulheres: velhas folgadas, gordas espaçosas, cheirando a suor, a bebida, a cigarro, a perfume barato, com muitas sacolas, com crianças chorando.

Em geral preferia ter a passagem para o corredor livre quando fosse sua vez de descer. Tinha a sensação horrível de que quando um homem estava sentado e só afastava os joelhos ia esbarrar sem querer o quadril no rosto do homem ou este estivesse olhando seu jeans com cobiça imaginando suas nádegas nuas. Não que se achasse a "gostosa" mas, sim era paranóica. Considerava que existia uma parcela em exceção extremamente pequena de homens "não-tarados", mas estes, as exceções não escolhiam o lugar vago ao seu lado. Assim como tambem não escolhiam o assento do seu lado alguem que ela achasse interessante. Agradecia realmente com sinceridade quando o homem levantava para dar passagem a sua saída.

Como estratégia do seu manual "Como andar de ônibus" passou a sentar com mais freqüência no lugar do corredor ao invés da janela, já diminuindo essa constrangedora situação. Entretanto quando preferia sentar no lugar da janela, pra encostar a cabeça no vidro e ficar olhando para o nada com a visão desfocada, saia do transe só para fazer torcida de que a pessoa escolhesse outro lugar. "Aqui não... Aqui não... Aqui não! Ah, droga."

O ônibus fez nova parada para pegar mais passageiros ela reparou bem nas pessoas, a primeira pessoa era uma jovem com um filho no colo. Pensou: _Pivete chorando no meu ouvido não. A segunda pessoa era um rapaz jovem demais para ser tão gordo. _ Como ele passou pela catraca. Imaginava ela. A terceira pessoa era um rapaz interessante até, com cara de nerd, uma camiseta do 'The Pixies'. _ Será que ele senta aqui? Acho que ele está vindo pra cá, deixa eu olhar para a janela para ele não achar que estou encarando. O rapaiz deu alguns passos na sua direção exitou e escolheu o lugar com um senhor ressonando baixo. Imediantamente atras antes que ela tivesse tempo de fazer torcida contra um senhor de aparentemente quase cinquenta anos bebado sentou ao seu lado e começou a falar sobre o tempo. _ Ta frio hoje a moça nun acha? Derrepente o livro ficou interessante, como se não pudesse passar mais um segundo sem saber qual seria o final. O capitulo do livro era.... _ Eu mereço, eu mereço, mereeeeeeeço!!

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Mimo de Avó

Ela estava encostada na parede do quintal debaixo da janela do seu irmão se aquecendo ao sol preguiçosamente. Verdade que não se demorava na exposição ao sol, logo seus olhos arderiam por causa da luz e sua pele irritaria por causa do calor, procuraria refugia a sombra.


Estava ansiosa para a chegada da sua avo, que viria busca-la para as ferias de janeiro na sua casa, momento raro em que receberia alguma atenção reservada, seria mimada. Era muito gostoso o verão, indo para a casa da avo não significava que ficaria na rua para brincar de pula corda, amarelinha, andar de bicicleta. Tambem não faria se permanecesse na sua casa. Mas a diferença era unica e exclusivamente o mimo da sua avo.


Tinha por natureza uma personalidade apatica de criança que pouco falava e pouco se mexia, tinha por unica companhia de infancia seu irmão mais novo e fora quando brincavam, passava o tempo que fosse onde mandavam, fazendo o que pediam. Não tinha a inquietude de qualquer criança, passava o tempo que fosse sentada a frente da televisão com a visão desfocada sem prestar atenção a nenhuma palavra, como se a televisão estivesse apenas produzindo aquela imagem chiada e sem som. Com a mente vazia permanecia no mesmo lugar até que alguem se incomodasse.


Porem, naquele semana sua mãe experimentara a diferença de seu comportamento, a todo momento perguntava as horas, se tinha mais alguma coisa para levar na mochila, sorria por nada, e no dia vigiava o portão a espera da sua avó.


Ela tomava também o cuidado para não irritar sua mãe em nenhum momento, até por que a mãe dela usava esse pequeno prazer para arrancar um bom comportamento, como se fosse realmente necessário, entretanto parecia que sua introspecção e calma a irritava. Por este motivo todo cuidado era pouco, se concentrava em todos os detalhes que a mãe particularmente não gostava para não fazê-los.


Sua avó vinha para resgatá-la de um sistema rígido, outros ares, outra vizinhança, outros costumes. Tinha bolinho de chuva com suco, canjica com amendoim, um feijão com caldinho mais grosso, voz suave, temperamento calmo, paciência, risada, piada, historias dos filhos (da sua mãe e seus tios), passeios ao centro da cidade, tinha ida ao supermercado, chinelo, bermuda. Ela tinha isso tudo estando na sua casa, exceto as histórias. Mas a sua avó fazia com tanta leveza e tudo tão direcionadamente para ela, era bom ser mimada, ter atenção "não-dividida", ouvia tambem sempre ela dizer com aparente orgulho "essa é minha netinha". Puro egocentrismo. (risos)


segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

"Adultismo"

foto: Talita Casemiro

Era um dia atipico, não foi trabalhar, consulta no médico, coisa rotineira, nada de grave. Não estava com a mochila, não estava de calça jeans, nem o all star surrado de sempre. Vestia uma sandália e bermuda, com uma regata larga. No caminho de volta sentou-se no banco da janela, o mêtro estava vazio, olhava para fora, um céu muito azul com algumas nuvens parecidas como as do jogo do mario broz, um azul que dava vontade de tocar, por um instante a janela do mêtro não parecia ter o vidro. Encostou a testa no vidro. Aquela tarde de tempo quente lhe trazia recordações saudosistas da época do ensino médio, sentada no shape do skate ouvindo atentamente as dicas da sua amiga para aprender a tocar violão, em uma rua curta e estreita próximo a escola, quase um beco, lugar que chamavam de clubinho... Clube de duas pessoas. Não eram sociáveis. Quantas horas de não ter o que fazer perdera? Saudades. Queria poder ir até aquela rua, sentar-se no chão e maltratar o violão. Comprar um sorvete de massa sem marca, o importante era ser gelado. Comentar do clipe de alguma banda que viu na eme te ve. Esperar o sol se pôr e voltar para casa rindo das piadas que faziam dos outros. Em casa. Queria perambular por ai, sem rumo. Mas nada era igual, crescera, tem responsabilidades agora. Emprego. Aquela amizade desfeita tambem. Acordava cedo, metia-se dentro de um ônibus lotado, trabalhava o dia todo, voltava exausta para casa. Tomava banho, jantava, dormia. Sentia até um pouco de angustia de estar presa ao "adultismo". Vontade de faltar no dia seguinte no serviço, era só vontade, era responsavel demais para isso. Ao menos um sorvete de massa sem marca poderia tomar.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Nuvens Caladas


foto: Anna Maria Casemiro

Deitou-se preguiçosamente na grama olhando para o alto, procurando estreitar laços com o céu, aquele imenso azul que lhe acalma o desassossego e nuvens brancas, por vezes outros tantos tons de cinza que eram companheiras de divagações. Cinza como sua rotina, as coisas passavam de euforia à tédio com tanta rapidez, tudo desbotava, igualmente as roupas pretas que usava, tentando compensar usava tênis vermelho, óculos verde e tinha os cabelos coloridos de azul, azul céu para que este estivesse em sua companhia mesmo em lugares fechados. Mas afinal de contas o que fazia ali? Que respostas buscava com o pôr-do-sol? Um céu lusco fusco com tons em rosa alaranjado traria respostas? Seus suspiros questionavam sua falta de sorte. Parecia amaldiçoada, talvez um dia pudesse se apaixonar por alguém que declarasse algum sentimento antes que o dela, ou que estivesse na sua rotina, mas sempre os via cinza e sem cor, como ela queria ver neles cor. Antes de isso acontecer parecia estar pré-destinada a sentimentos efusivos, sempre se encantando no primeiro olhar por desconhecidos. Numa destas noites que escolhia estar em lugares com fumaça de cigarro, pessoas embriagadas e cover das bandas do seu agrado, aconteceu quando viu um cara passar, ela não sabe o que foi que lhe chamou atenção, mas sempre acontecia assim. Assim acontecia. Só que aquele sentimento já estava remoído e teve que fazê-lo virar passado. Passado recente. Já foi rejeitada. Maldição. Mas não era essa a questão. Não. Não era. Ela se deparara com a novidade de ter alguém proposto a conhecer sua complexidade? Por que ela sentia medo? Por que sua primeira reação foi tentar mante-lo a uma distancia segura? Medo. Que sentimental mais irracional. Ela ansiava por uma companhia, para trilhar seus caminhos não mais solitários. Era estranho. Ela estava a um passo de estragar tudo novamente? Não conseguiu dissolver as duvidas. As nuvens não queriam conversar naquele dia.